Por que muitos brasileiros ainda resistem a se ver como latinos? Essa pergunta pode parecer simples à primeira vista, mas revela camadas profundas de identidade, história e relações de poder. Para quem embarca em um intercâmbio, essa questão muitas vezes aparece de forma inesperada no aeroporto, na sala de aula, ou mesmo na forma como somos vistos no trabalho ou na rua.
“Latina” é uma categoria étnica, usada para identificar pessoas originárias ou descendentes da América Latina. Isso inclui brasileiros, mesmo que muitas vezes o Brasil seja excluído do imaginário popular por não ser hispânico. Essa identidade abrange todas as raças: há latinas brancas, negras, indígenas, asiáticas, mestiças. Ou seja, não é uma categoria racial.
Por que “latina” é tratada como se fosse uma cor de pele?
Nos Estados Unidos, o sistema de classificação social tem uma longa tradição de categorizar pessoas de forma racializada, e a categoria “latina” é amplamente utilizada como marcador visual, social e político, muitas vezes no lugar da raça.
Exemplo de como isso aparece na prática:
Formulários oficiais pedem para marcar “Race” (cor/raça) e “Ethnicity” (etnia) separadamente, sendo “Hispanic or Latino” uma opção de etnia que pode vir sozinha.
O que isso significa para uma brasileira no exterior?
Mesmo que uma brasileira branca nunca tenha se visto como “pessoa racializada” no Brasil, fora do país ela pode ser percebida como latina e, portanto, diferente — às vezes até “menos branca”. Isso pode envolver:
A identidade latina como marcador social e político
Nos Estados Unidos, por exemplo, o termo Latina(o) vai muito além de um marcador geográfico. Ele se torna uma categoria social que muitas vezes substitui até mesmo o critério da cor da pele. Pessoas brancas, pardas ou negras de origem latino-americana são todas lidas sob o mesmo rótulo: latinas. A “latinidade”, nesse contexto, funciona como uma identidade coletiva imposta, mas também reivindicada um lugar de pertencimento, resistência e, às vezes, de exclusão.
Na Europa, a situação pode ser ainda mais complexa. Em países como França, Alemanha ou Itália, ser latino muitas vezes carrega estigmas associados à classe social e à imigração. Você pode ter a pele clara, falar várias línguas, ter nível universitário, mas se vier da América Latina, será lido como “do Sul”, “menos europeu”, “exótico”, “apaixonado”, “barulhento”, ou “imigrante”.
E o Brasil no meio disso tudo?
Apesar de estar geograficamente na América Latina, o Brasil tem uma relação ambígua com sua identidade latino-americana. Muitos brasileiros, influenciados por uma herança colonial portuguesa e pelo mito da excepcionalidade nacional, resistem à ideia de serem chamados de “latinos”. Talvez porque a palavra evoque imagens que não se encaixam com o imaginário construído sobre o Brasil ou talvez porque ela desestabilize a ideia de uma identidade única, “mestiça”, orgulhosamente diferente dos países hispano-americanos.
No entanto, ao sair do Brasil, é inevitável perceber: somos lidos como latinos. E muitas vezes, somos tratados como tal com todos os estereótipos e desafios que isso implica.
Ser latina é carregar narrativas múltiplas
Ser chamada de latina no exterior pode, a princípio, soar estranho. Mas também é um convite a refletir: qual é o lugar que ocupamos no mundo como brasileiras? A resposta não cabe em uma caixinha única. Ela envolve raça, classe, gênero, sotaque e, claro, história. Uma história de colonização, resistência e reinvenção.
Estudantes brasileiras que vivem essa experiência fora do país relatam descobrirem uma solidariedade transnacional entre mulheres latinas, que compartilham línguas diferentes, mas lutas parecidas: contra o machismo, o racismo, a xenofobia e a precarização do trabalho imigrante.
Foi em Brixton que nos sentimos realmente latinas
Eu e Jéssica estávamos em intercâmbio em Londres quando decidimos explorar o bairro de Brixton. Ele raramente aparece nos guias turísticos, mas é um lugar pulsante, com uma história marcada pela luta racial especialmente após os protestos de 1981 e uma cultura afro-caribenha vibrante.
Logo de cara, senti que ali havia algo diferente no ar. Era vida, resistência, ancestralidade, música, orgulho. Um bairro que fala, dança e resiste.
Entramos em um bar frequentado majoritariamente por pessoas pretas. O clima era acolhedor, e logo começamos a conversar com um local sobre racismo no Brasil, no Reino Unido, no mundo. Em determinado momento, usamos uma expressão muito comum entre nós: comentamos sobre “lugar de fala” para certas questões.
Ele nos interrompeu, com um olhar direto, quase espantado:
“Mas vocês não são brancas.”
Ficamos em silêncio.
“Não somos brancas?” respondemos juntas!
“Não, vocês são latinas”, ele devolveu.

Vivi Lac e Jéssica durante o intercâmbio em Londres. Setembro, 2023
No Brasil, somos brancas. Mas ali, naquele contexto, nossa identidade foi lida de outra forma: latina, estrangeira, racializada. Não era exatamente uma crítica, nem uma acusação era uma constatação. E uma chave girou dentro de mim.
Naquele momento, percebemos o quanto nossa identidade não é uma coisa fixa. Ela muda conforme o território, o olhar do outro, o contexto histórico. Pela primeira vez, não fomos apenas brasileiras, fomos latinas. E isso nos encheu de algo novo: pertencimento, consciência, orgulho.
Essa experiência me fez rever muitas coisas. Inclusive a forma como o Brasil insiste em se afastar da América Latina e em negar o próprio racismo, se escondendo atrás da ideia da miscigenação como harmonia.
Brixton nos sacudiu! Foi lindo!
Identidade é também potência
Na Beeducation, acreditamos que o intercâmbio não é apenas sobre estudar inglês, fazer turismo ou turbinar o currículo. É também sobre se descobrir — inclusive como latino-americana. Ser latino não é um rótulo menor. Pelo contrário: é se reconhecer como parte de uma comunidade transnacional diversa, criativa e resiliente. É perceber que identidade é mais do que passaporte é história viva.
Se você vai estudar fora, prepare-se: essa jornada vai transformar o modo como você se vê. E, quem sabe, você volte não apenas falando uma nova língua — mas também assumindo, com orgulho, a sua latinidade.
Escritoras brasileiras que exploram a identidade e cultura latina em suas obras
A literatura latino-americana também se debruça sobre as relações raciais e de gênero, explorando as experiências de mulheres negras e indígenas, e as interseccionalidades entre raça, classe e gênero.
Conceição Evaristo:
Conhecida por sua escrita que entrelaça a experiência negra e feminina, a autora aborda a memória, a ancestralidade e a resistência através de uma linguagem poética e visceral.
Maria Firmina dos Reis:
Considerada a primeira romancista negra da América Latina, Maria Firmina dos Reis, em “Úrsula”, explora a temática da escravidão e da condição da mulher negra no século XIX, revelando a complexidade da identidade brasileira.
Eliane Potiguara:
Ativista e escritora indígena, Eliane Potiguara utiliza a literatura para defender os direitos dos povos originários e preservar a cultura indígena, abordando temas como ancestralidade, terra e resistência.
Ana Maria Gonçalves:
Em seus romances, Gonçalves investiga as relações entre Brasil e África, explorando a diáspora africana e a construção da identidade negra no contexto brasileiro.

