Você chega em outro país e, de repente, coisas que fazia sem pensar voltam a exigir atenção.

Pegar um ônibus.

Entender o que alguém falou.

Comprar alguma coisa.

Explicar um problema.

Perguntar onde fica o banheiro.

Fazer amizade.

Você pode ter estudado inglês durante anos e descobrir, logo nos primeiros dias, que saber inglês não significa entender todos os sotaques. Pode ser completamente independente no Brasil e precisar perguntar como funciona uma máquina de lavar. Pode ter pesquisado a cidade durante meses e, ainda assim, descer na estação errada.

Talvez exista uma boa metáfora para isso em um livro que aparentemente não tem nada a ver com intercâmbio.

Ostra Feliz Não Faz Pérola, de Rubem Alves.

O que significa “ostra feliz não faz pérola”?

Como título de seu livro, Rubem Alves parte da imagem da pérola para falar sobre criação.

Na metáfora apresentada no livro, existe algo dentro da ostra que incomoda. É a presença dessa “areia pontuda” que exige uma resposta: a ostra envolve aquilo que a machuca e, desse processo, surge a pérola.

A imagem é usada pelo autor para pensar sobre aquilo que nos inquieta e nos obriga a criar respostas novas. E Rubem Alves faz uma observação especialmente interessante: essa dor nem sempre precisa ser uma grande dor. Às vezes, pode aparecer simplesmente como curiosidade.

É justamente aqui que a metáfora começa a conversar com o intercâmbio.

Não porque seja necessário sofrer para que uma viagem seja transformadora.

Mas porque sair do lugar conhecido cria pequenos incômodos o tempo inteiro.

O intercâmbio tira você do automático

Grande parte da nossa vida acontece por automatismo. A gente sabe como pedir comida, como pegar transporte, como conversar com alguém no trabalho, como perceber quando uma pessoa está brincando, como reclamar de um serviço, como se comportar numa sala de aula. Não precisamos acordar todas as manhãs e reaprender o Brasil.

No intercâmbio, parte desses automatismos desaparece e isso é uma das coisas mais interessantes de morar temporariamente em outro país. O simples volta a exigir atenção. Você sabe inglês, mas não entende o sotaque daquela pessoa. Abre a boca para falar e esquece justamente a palavra de que precisava… Normal! Isso vai acontecer muito!

Percebe que uma brincadeira que funcionaria perfeitamente no Brasil não funciona ali e muitas outras coisas. No entanto, nada precisa ser uma grande crise. É só a areia.

A “areia” do intercâmbio quase nunca é cinematográfica

Quando contamos uma experiência internacional depois que ela terminou, existe uma tendência a lembrar dos grandes acontecimentos.

A primeira vez vendo neve.

A viagem de fim de semana.

A amizade que ficou.

Aquele lugar maravilhoso que apareceu nas fotos.

Mas parte importante da experiência acontece em momentos tão pequenos que provavelmente nunca entrarão no Instagram.

É quando você precisa explicar alguma coisa e percebe que não conhece a palavra exata.

Quando pergunta de novo porque não entendeu.

Quando precisa resolver sozinha uma situação que, no Brasil, resolveria em dois minutos.

Quando percebe que uma coisa que sempre considerou “normal” talvez fosse apenas brasileira.

Quando alguém faz algo de uma maneira completamente diferente da sua e você descobre que diferente não significa necessariamente errado.

É nesse atrito cotidiano que outra coisa pode começar a acontecer: você deixa de apenas visitar uma cultura e passa a negociar sua presença dentro dela.

Existe até uma teoria da aprendizagem que ajuda a entender isso

Na educação de adultos existe um conceito chamado aprendizagem transformadora, associado ao pesquisador Jack Mezirow.

Uma das ideias utilizadas nessa abordagem é a do disorienting dilemma, algo como um “dilema desorientador”: uma experiência que não se encaixa perfeitamente na maneira como a pessoa costumava compreender ou resolver determinada situação.

O interessante é que estudos sobre educação internacional aplicam justamente esse conceito às experiências de estudo no exterior. O encontro com ambientes, comportamentos e referências culturais desconhecidos pode fazer a pessoa questionar pressupostos que antes pareciam óbvios.

Um estudo publicado em 2023 analisou dados de 1.858 estudantes norte-americanos que estudaram em 27 países entre 2014 e 2020. Os pesquisadores observaram que momentos de desorientação cultural podem oferecer oportunidades importantes de aprendizagem intercultural, especialmente quando existe orientação e reflexão sobre essas diferenças.

Ou seja: não é simplesmente “passar perrengue”.

Existe uma diferença enorme entre passar por uma situação difícil e aprender alguma coisa com ela.

Viajar para outro país não transforma ninguém automaticamente

Essa parte é importante. Existe uma narrativa bastante conveniente no mercado de intercâmbio de que basta colocar os pés em outro país para voltar uma pessoa completamente diferente. Não funciona exatamente assim.

A literatura sobre study abroad questiona justamente essa espécie de “hipótese da imersão”: a experiência internacional, sozinha, não garante maior proficiência no idioma, mentalidade global ou sensibilidade intercultural. Interação, reflexão e a maneira como a pessoa se envolve com o ambiente também importam.

Duas pessoas podem morar durante o mesmo período na mesma cidade e voltar com experiências completamente diferentes. Uma pode reproduzir no exterior praticamente a mesma vida que tinha no Brasil, convivendo apenas com brasileiros e evitando situações em que precise se comunicar. Outra pode observar, perguntar, errar, conversar com pessoas diferentes e começar a questionar coisas que sempre considerou naturais.

O país não faz o trabalho sozinho.

Talvez aprender outro idioma também passe por isso

Existe uma pequena humilhação cotidiana em aprender uma língua: durante algum tempo, você sabe muito mais do que consegue dizer.

No Brasil, você pode ser engraçada, rápida, articulada, profissional, cheia de referências. Em outra língua, talvez precise começar com: “Could you say that again?” e tuuudo  bem porque precisamos entender que fluência também se constrói nesses momentos.

Mas “ostra feliz não faz pérola” não deveria virar elogio ao sofrimento

Aqui está o limite da metáfora por ser importante entender a diferença entre desconforto e sofrimento. Não entender uma palavra pode fazer parte da experiência.

Sentir vergonha antes de perguntar alguma coisa, estranhar hábitos ou precisar reconstruir pequenas rotinas são situações bastante diferentes de viver abuso, discriminação, assédio, insegurança ou condições inadequadas. Intercâmbio não precisa machucar para transformar. Além disso, ninguém precisa suportar situações graves porque “isso vai fazer você crescer”.

A experiência internacional pode desafiar certezas sem ultrapassar limites de segurança, dignidade e respeito.

Então qual é a pérola?

Talvez ela seja muito menos grandiosa do que parece.

Depois de algumas semanas, você simplesmente pega aquele transporte.

Pergunta.

Resolve.

Conversa.

Marca alguma coisa.

Liga.

Vai sozinha.

Entra numa sala sem conhecer ninguém.

Não entende uma frase e pede para repetirem sem sentir que o mundo acabou.

E quase não percebe que está fazendo coisas que, algumas semanas antes, exigiam uma quantidade enorme de energia.

Aquela situação deixou de ser estrangeira.

Virou repertório.

E talvez uma das melhores coisas que um intercâmbio possa deixar não seja a sensação de que você “venceu dificuldades”.

É uma constatação bem mais simples:

eu sei me virar em lugares que ainda não conheço.

A pérola talvez seja essa.

Não voltar sem sotaque, sem medo ou completamente transformada.

Mas voltar sabendo que o seu mundo pode ser maior do que aquele no qual você já sabia exatamente como tudo funcionava.

E você: qual foi a sua “areia”?

Aquela situação durante o intercâmbio que tirou você do automático e que, olhando hoje, mudou alguma coisa na sua maneira de enxergar o mundo?

 

Ostra feliz não faz pérola: 2ª Edição ‘A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: ‘Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…’ Ostras felizes não fazem pérolas… Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída… Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Esse livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi’.

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