Quando alguém começa a pensar em fazer um intercâmbio, especialmente de idiomas e de curta duração, é normal imaginar primeiro a escola, as aulas e tudo o que poderá conhecer no destino e se pegar pensando como é o dia a ia em um intercâmbio. Só que, depois de tantos anos trabalhando com intercâmbio e acompanhando estudantes, diríamos que uma das partes mais interessantes da experiência é justamente aquela que quase nunca aparece nas fotos: ter uma rotina em outro país.
Porque você não vai passar todos os dias visitando pontos turísticos, mas sim que em algum momento vai descobrir qual ônibus deixa mais perto da escola, onde vale a pena comprar comida, qual café tem um preço melhor, qual caminho você prefere fazer a pé. Vai reconhecer a pessoa da recepção da escola, encontrar os mesmos colegas durante a semana e começar a entender coisas da cidade que dificilmente perceberia passando três ou quatro dias ali.
É uma viagem, claro. Só que durante algumas semanas ou meses aquele lugar também vira um pouco a sua casa. E, no meio disso tudo, você está estudando, por isso acho bastante injusto comparar o preço de um intercâmbio apenas com o preço de uma viagem de férias, mesmo que só férias pode até custar mais. Nos dois casos existem passagem, acomodação, alimentação, passeios. Só que no intercâmbio existe também a escola, o aprendizado e essa possibilidade de usar o idioma dentro e fora da sala de aula.
Como é a rotina de quem faz intercâmbio?
Isso varia bastante. Depende da cidade, da escola, da carga horária que você escolheu, da acomodação e até da época do ano.
Mas vamos imaginar um intercâmbio de inglês relativamente tradicional.
Você acorda, toma café, vai para a escola e passa uma parte do dia estudando. Depois pode almoçar com pessoas da sua turma, participar de alguma atividade organizada pela escola, conhecer a cidade, fazer compras, estudar mais um pouco ou simplesmente voltar para casa.
E eu gosto muito dessa parte do “simplesmente voltar para casa”, porque intercâmbio também é vida normal.
Você vai precisar entender um aviso no transporte, perguntar alguma coisa no supermercado, falar com alguém da acomodação, pedir comida, comprar um bilhete, descobrir onde fica determinada rua.
Para quem está aprendendo inglês, tudo isso conta.
Às vezes a interação dura trinta segundos, mas você usou o idioma porque precisava dele, e não porque a professora pediu para formar uma frase usando determinado tempo verbal.
Como pode ser uma manhã durante o intercâmbio?
Muitos cursos de idiomas acontecem pela manhã, embora existam escolas com aulas à tarde e diferentes opções de horário.
Então você acorda na casa de família, residência estudantil ou apartamento, toma seu café e vai para a escola.
Só esse caminho já pode render bastante coisa.
No começo você confere o Google Maps três vezes. Depois de alguns dias já sabe onde descer. Você começa a entender os anúncios do metrô, compra alguma coisa antes da aula, dá bom dia para alguém, conversa com sua host family antes de sair.
Na escola, encontra gente que também saiu de vários lugares do mundo para estudar.
Dependendo do curso, as aulas trabalham conversação, listening, leitura, escrita, vocabulário e gramática. E uma das coisas boas de estudar no país onde aquele idioma é usado é que a aula não fica isolada do resto do dia.
Você aprende uma expressão de manhã e escuta alguém usando à tarde.
Descobre uma palavra no supermercado e pergunta para a professora no dia seguinte.
Percebe que estava pronunciando alguma coisa de um jeito que ninguém entende muito bem e tenta de novo.
A prática vai entrando na vida sem você precisar transformar cada minuto em exercício de inglês.
E o que fazer à tarde durante um intercâmbio?
Terminou a aula? A tarde é sua.
E aqui dá para montar experiências completamente diferentes.
Muitas escolas têm calendário de atividades sociais. Pode ter visita a museu, walking tour, encontro de conversação, esporte, passeio por algum bairro, excursão ou atividade dentro da própria escola.
Algumas atividades estão incluídas. Outras têm custo adicional.
Eu sempre recomendo olhar esse calendário, principalmente nas primeiras semanas. É uma maneira bastante fácil de conhecer gente sem precisar chegar sozinho em um lugar tentando fazer amizade do nada.
Mas você também pode sair por conta própria.
Ir conhecer aquela atração que estava salva há meses no celular, visitar um bairro histórico, entrar num museu, caminhar sem muita pressa, almoçar com os colegas ou sentar em uma cafeteria para fazer a tarefa da escola.
E existe uma coisa que eu gosto muito no intercâmbio: você pode fazer turismo sem precisar viver a cidade como se tivesse apenas 48 horas para conhecer tudo.
Dá para passar por uma rua e voltar outro dia. Ir duas vezes ao mesmo parque. Descobrir um restaurante pequeno perto da escola. Conhecer um bairro que nem estava na lista inicial.
Com o tempo, a cidade deixa de ser formada apenas pelos pontos turísticos.
E à noite?
Pode ser jantar com a host family.
Pode ser aquele chá depois do jantar enquanto todo mundo conversa sobre o dia.
Pode ser uma noite com os amigos que você fez na escola, uma atividade de intercâmbio de idiomas ou simplesmente ficar em casa porque você está cansada e amanhã tem aula de novo.
Vai ter dia em que você vai querer sair.
Vai ter dia em que vai querer colocar roupa para lavar.
E vai existir mercado, transporte, tarefa, contas, planejamento para o final de semana e despertador.
Eu sei que essa parte não parece tão emocionante quando a gente fala de intercâmbio, mas ela é importante. Inclusive porque é nela que você percebe que está vivendo temporariamente em outro lugar e não apenas hospedada ali durante as férias.
No intercâmbio, o idioma acompanha você depois da aula
Se a sua aula termina às 12h30, o inglês não termina às 12h30.
Você sai da escola e continua ouvindo o idioma no ônibus, na cafeteria, na farmácia, no mercado e nas conversas ao redor.
Vai ler placas. Pedir alguma coisa. Não entender. Pedir para a pessoa repetir. Perceber um sotaque diferente. Descobrir que aquela frase que parecia ótima na sua cabeça não funcionou muito bem quando você falou.
Faz parte.
Aliás, acho que uma das coisas mais interessantes do intercâmbio é justamente poder errar em situações reais e descobrir como se virar.
A escola organiza o aprendizado. A cidade oferece centenas de oportunidades para usar aquilo.
Mas morar fora também não faz milagre.
Se você sai da aula e passa o restante do dia falando apenas português, as oportunidades diminuem bastante. Não acho que ninguém precise fugir de brasileiros no intercâmbio, inclusive porque podem nascer amizades maravilhosas. Só não faz muito sentido atravessar o oceano e criar uma rotina em que o inglês aparece apenas durante a aula.
Como é morar em casa de família durante o intercâmbio?
Eu gosto bastante de homestay para quem quer acrescentar mais contato com a vida local à experiência.
Você termina a aula e volta para uma casa de verdade.
Existem horários, hábitos, regras da casa, pessoas chegando do trabalho, jantar, conversa, televisão ligada, alguém tomando chá na cozinha.
Não espere encontrar uma família contratada para conversar com você cinco horas por dia e corrigir seu inglês. Host families têm trabalho, compromissos e rotina própria.
E é justamente isso que torna a experiência interessante.
Uma conversa durante o jantar pode ser rápida. No outro dia vocês podem falar sobre o clima. Em algum momento você pergunta como funciona a máquina de lavar ou avisa que vai chegar mais tarde.
O idioma aparece porque existe convivência.
Claro que homestay não é a escolha certa para todo mundo.
Tem estudante que adora a experiência. Tem estudante que prefere residência porque quer mais independência e contato com outros estudantes internacionais.
Nós não escolhemos acomodação pensando apenas no preço. O perfil da pessoa importa bastante.
O que um intercâmbio ensina além do idioma?
Essa é uma parte que não aparece muito bem na planilha.
Tem curso.
Tem acomodação.
Tem matrícula.
Tem seguro.
Só não existe um campo escrito “aprender a organizar sua vida em outro país”.
E isso acontece bastante.
Você começa a entender uma cidade que não conhece. Aprende a administrar o dinheiro em outra moeda. Precisa se organizar para chegar no horário. Conhece pessoas com hábitos completamente diferentes dos seus. Resolve pequenas coisas sozinha.
Algumas você faz muito bem.
Outras dão errado.
No final do dia, você segue estudando inglês e aproveitando a viagem.
Por isso, quando alguém me pergunta por que faria um intercâmbio se poderia simplesmente viajar, eu sempre penso primeiro no que essa pessoa espera dessas férias.
Se a ideia é passar dez dias descansando e conhecendo lugares, ótimo.
Agora, se você já pretende comprar passagem, pagar acomodação e ficar algumas semanas fora do Brasil, eu consideraria seriamente colocar um curso nessa viagem.
Porque existe a possibilidade de voltar tendo conhecido o destino e aprendido alguma coisa enquanto estava ali.
Como aproveitar melhor a rotina de um intercâmbio?
Primeiro, eu não encheria todos os espaços livres com passeios.
Já vi gente montar uma programação tão apertada que a escola quase vira um compromisso inconveniente entre duas atrações turísticas.
Você foi estudar. Aproveite a escola também.
Converse com pessoas que não falam português. Vá às atividades sociais. Aceite aquele convite para tomar um café depois da aula. Caminhe pelo bairro onde está morando. Entre no mercado. Use a cidade.
Se tiver brasileiros na turma, converse com eles também. Não precisamos criar essa regra estranha de que brasileiro precisa evitar brasileiro durante o intercâmbio.
Só procure não construir toda a sua vida social em português.
E faça turismo, sim.
Vá ao lugar famoso.
Tire 70 fotos.
Passe o sábado inteiro fora.
Pegue um trem no final de semana se fizer sentido.
Estudar e aproveitar a viagem cabem perfeitamente no mesmo intercâmbio quando o programa é bem planejado.
Intercâmbio é melhor do que uma viagem de férias?
Eu nem acho que essa comparação precise colocar uma coisa contra a outra.
Viajar de férias é maravilhoso. Às vezes você quer simplesmente descansar, comer bem, conhecer lugares e voltar para casa. E pronto.
O intercâmbio atende outra vontade.
Imagine Londres.
Como turista, você pode visitar a Tower Bridge, conhecer museus, andar por Camden e tirar aquela foto clássica na cabine telefônica.
Como intercambista, você pode fazer tudo isso também. Só que na segunda-feira acorda e vai para a escola. Aprende qual linha de metrô pegar, começa a ter lugares preferidos, conhece pessoas que estão morando ali e vai criando uma relação diferente com a cidade.
Em Toronto acontece a mesma coisa. Você pode visitar a CN Tower e, ao mesmo tempo, saber qual supermercado tem perto da sua acomodação.
Em Dublin, conhecer os lugares que todo turista quer conhecer e também descobrir um café perto da escola onde você começa a voltar com frequência.
Você pode viajar no sábado e no domingo. Só precisa lembrar que segunda-feira tem aula.
Para mim, esse é um dos melhores argumentos a favor de um intercâmbio de curta duração, especialmente para quem já estava planejando fazer uma viagem internacional.
A passagem aérea já vai levar você para outro país.
Então existe a possibilidade de usar essas mesmas férias para conhecer o destino e ainda estudar.
Vale a pena fazer intercâmbio de apenas 2, 3 ou 4 semanas?
Sim, desde que você tenha expectativas coerentes com o tempo que ficará fora.
Quatro semanas não vão transformar alguém que começou inglês ontem em uma pessoa fluente. E eu desconfio bastante de quem vende intercâmbio prometendo esse tipo de resultado.
Mas quatro semanas são quatro semanas vivendo em inglês.
São vários dias de aula, deslocamentos pela cidade, conversas com colegas, situações na acomodação, atividades, pedidos em restaurantes, mercado, passeios e finais de semana.
Quem trabalha e tem apenas o período de férias disponível não precisa concluir que intercâmbio só vale a pena se puder ficar seis meses fora.
Nós temos muitos estudantes adultos exatamente nesse perfil.
A pessoa já tiraria 20 ou 30 dias para viajar. Em vez de fazer exclusivamente turismo durante todo o período, coloca duas, três ou quatro semanas de curso no roteiro.
Continua sendo férias.
Só que com uma escola no meio delas.
Dá para fazer turismo durante um intercâmbio?
Claro.
Inclusive acho estranho imaginar um intercâmbio em que a pessoa vai para outro país e não conhece nada do destino porque resolveu passar todas as horas disponíveis estudando.
Dependendo do curso, você terá uma parte do dia livre. Existem também os finais de semana e, em alguns casos, feriados.
Dá para fazer museu depois da aula, conhecer bairros durante a semana e organizar passeios maiores no sábado e domingo.
Dependendo de onde você estiver, ainda pode conhecer outras cidades próximas.
E sim, você vai tirar foto, comprar lembrancinha, conhecer os lugares famosos e fazer várias das coisas que faria se estivesse de férias.
A escola não impede a viagem.
Ela entra na viagem.
Preciso falar bem o idioma antes de fazer intercâmbio?
Não.
Existem escolas com turmas para vários níveis, inclusive estudantes iniciantes. O que será possível vai depender da instituição e do programa escolhido, então isso precisa ser verificado antes da matrícula.
Mas eu acho muito gostoso acompanhar quem começa o intercâmbio com bastante insegurança e, alguns dias depois, conta uma situação aparentemente banal com o maior orgulho.
“Hoje consegui pedir meu almoço sozinha.”
“Consegui conversar com a minha host mother.”
“Entendi o que a pessoa perguntou sem precisar pedir para repetir.”
São conquistas pequenas para quem olha de fora.
Para quem estava travando para abrir a boca alguns dias antes, não são pequenas coisa nenhuma.
Com o tempo você também percebe que não precisa montar uma frase impecável antes de falar. Começa a responder mais rápido, entende melhor alguns sotaques e deixa de traduzir mentalmente cada palavra.
Essa evolução nem sempre cabe numa nota ou certificado.
Mas você sente.
Como planejar um intercâmbio de idiomas?
Eu não começaria escolhendo a escola.
Começaria entendendo a pessoa.
Quanto tempo você tem? Quando pode viajar? Quanto pretende investir? Quer estudar bastante ou prefere uma carga horária que deixe uma parte maior do dia livre? Gosta de cidade grande? Quer ficar em casa de família? Faz questão de ter banheiro privativo? Quer poder viajar nos finais de semana?
Tudo isso muda a recomendação.
Uma pessoa que tem quatro semanas de férias e quer conhecer bastante o destino precisa de um planejamento.
Outra que vai passar seis meses fora e tem como prioridade avançar muito no idioma precisa de outro.
Até duas pessoas indo para a mesma cidade podem receber recomendações completamente diferentes.
É por isso que trabalhamos com curadoria na Beeducation.
Preço importa muito e precisa caber no orçamento, obviamente. Mas eu não escolheria um intercâmbio inteiro apenas perguntando qual escola custa menos.
Eu perguntaria também:
como eu quero viver os meus dias quando estiver lá?
Porque o intercâmbio não acontece apenas naquele sábado lindo em que você foi conhecer um lugar famoso.
Ele acontece na terça-feira, quando você acordou, pegou o transporte, teve aula de inglês, almoçou com uma coreana e uma colombiana, passou no mercado, ficou dez minutos procurando uma coisa que não sabia como chamar em inglês e terminou o dia tomando chá com a host family.
Essa terça-feira também é o intercâmbio.
E talvez seja uma das partes mais legais dele.
Quer conversar sobre como seria a sua rotina fora do Brasil? A Beeducation pode comparar destinos, escolas, carga horária, acomodação e investimento pensando não apenas em onde você quer estudar, mas em como quer viver essa experiência.
Posso trabalhar enquanto faço intercâmbio?
Aqui não existe uma resposta única. A possibilidade de trabalhar depende do país, do tipo de curso, da duração do programa, do visto e das regras migratórias aplicáveis a cada estudante.
Em alguns destinos e programas existe permissão de trabalho. Em outros, não. Por isso eu não planejaria o orçamento de um intercâmbio contando com um emprego antes de confirmar se aquela pessoa, naquele programa específico, realmente terá autorização para trabalhar. É uma informação que precisa ser checada caso a caso.
Na Beeducation, quando trabalho faz parte do objetivo do estudante, isso entra na análise desde o planejamento do intercâmbio.

