A internet transformou consultoria em palavrão, e mentoria em produto.

Nos últimos anos, surgiu no mercado de educação internacional um discurso bastante sedutor: você não precisa de agência de intercâmbio. Não precisa de intermediários. Não precisa pagar alguém para fazer aquilo que poderia aprender a fazer sozinho.

Até aí, tudo bem, afinal há pessoas que preferem correr riscos e organizam intercâmbio por conta própria.

Mas nesse discurso “você não precisa de agência” então acontece uma coisa curiosa. Depois de convencer o estudante de que ele não precisa de alguém para orientá-lo, aparece uma mentoria para intercâmbio oferecendo orientação. Faz sentido?

Mentores. Plataforma. Comunidade. Aulas. Acompanhamento durante a candidatura.

O intermediário não desapareceu.

Ele ganhou outro nome.

Mentoria para intercâmbio não é o problema

Vamos começar pelo mais importante: não há nada de errado em vender uma mentoria para intercâmbio.

Conhecimento tem valor. Experiência tem valor (se bem que tem mais charlatanismo do que experiência nesses casos). Curadoria tem valor. Economizar dezenas de horas de pesquisa também tem valor.

Uma pessoa pode preferir pagar por uma mentoria para aprender a conduzir o próprio processo possivelmente com muitas falhas. Outra pode contratar uma consultoria especializada. Outra pode escolher fazer sozinha.

São modelos diferentes.

O problema começa quando a diferença entre eles deixa de ser explicada pelo que cada serviço efetivamente entrega e passa a ser construída por uma narrativa mais conveniente:

o meu serviço é orientação; o serviço do outro é intermediação.

eu ensino; o outro vende.

eu dou autonomia; o outro ganha dinheiro com você.

Só que mentoria também é um produto.

Consultoria também é um produto.

Plataforma também é um produto.

Agência também é um produto.

E não há absolutamente nada de errado nisso.

“Você não precisa de agência.” Mas precisa de mentoria?

Essa contradição fica especialmente evidente quando observamos algumas páginas comerciais do próprio mercado.

Há programas de mentoria para intercâmbio que se apresentam comparando explicitamente sua solução com uma agência e, ao mesmo tempo, oferecem acompanhamento por mentores, revisão de documentos, preparação para entrevistas, plataforma de oportunidades e orientação durante o processo de candidatura. Em um exemplo atual, a própria página comercial anuncia “tudo que uma agência te entrega” para apresentar, em seguida, seu ecossistema de mentoria e tecnologia.

Isso não significa que os dois serviços sejam iguais.

Não são.

Mas revela uma discussão muito mais interessante:

se você cobra para orientar alguém durante um intercâmbio, você também participa economicamente dessa decisão.

Mudar o nome do serviço não elimina o interesse comercial.

Agência de intercâmbio e mentoria para intercâmbio são a mesma coisa?

Não necessariamente.

Uma mentoria pode ter uma proposta predominantemente educacional rasa: replicar um modelo que diz ensinar o estudante a pesquisar oportunidades, estruturar candidaturas e conduzir determinadas etapas por conta própria e, assim o mentor não assume a execução ou responsabilidade operacional pelo processo.

Uma agência de intercâmbio pode atuar diretamente na curadoria, consultoria, direcionamento de informação e operacionalização do intercâmbio: matrícula, comunicação com a instituição de ensino, acomodação, seguro, pagamentos, documentação, suporte antes do embarque e assistência durante determinadas etapas da viagem.

E as fronteiras podem se misturar.

Por isso, talvez “agência ou mentoria?” seja uma pergunta ruim.

Uma pergunta melhor seria:

o que exatamente essa empresa fará por mim?

O marketing do “eu consegui sozinho”

Existe outra característica frequente nesse mercado: transformar uma trajetória pessoal extraordinária em método.

A narrativa costuma seguir uma estrutura conhecida.

Eu não tinha dinheiro.
Eu não sabia inglês.
Eu não conhecia ninguém.
Eu descobri um caminho.
Consegui uma oportunidade extraordinária.
Agora vou ensinar esse caminho para você.

Histórias assim podem ser verdadeiras e inspiradoras.

O problema aparece quando a experiência individual começa a funcionar como evidência de que outras pessoas poderão reproduzir resultados semelhantes.

Um caso bastante conhecido no mercado brasileiro de mentorias internacionais, há uma figura pública que afirma, na própria página comercial, que chegou aos 22 anos sem falar inglês, aprendeu sozinho em três meses e, seis meses depois, recebeu propostas de instituições e empresas internacionais. A mesma página apresenta Harvard, MIT e Oxford no universo da comunicação comercial e afirma posteriormente que o programa mostra ao estudante como fazer o mesmo em relação ao aprendizado de inglês.

Red Flag: É justamente aqui que inspiração e publicidade precisam ser separadas.

Inglês em três meses: o que exatamente significa “aprender”?

Essa é a primeira evidência que se deve desconfiar. Dizer “aprendi inglês em três meses” é uma frase excelente para uma rede social.

Mas é uma frase muito pouco precisa do ponto de vista educacional.

Qual era o nível inicial?

Qual foi o nível atingido?

Quantas horas eram estudadas por dia?

Havia conhecimento anterior?

“Aprender” significa conseguir manter uma conversa cotidiana? Fazer uma prova de proficiência? Alcançar B1? B2? C1? Acompanhar uma aula universitária? Produzir textos acadêmicos?

Sem essas informações, duas pessoas podem dizer “aprendi inglês” e estar descrevendo níveis completamente diferentes.

E temos referências educacionais que ajudam a colocar o assunto em perspectiva.

A Cambridge English estima aproximadamente 350 a 400 horas de aprendizagem guiada para chegar ao B1, 500 a 600 horas para B2 e 700 a 800 horas para C1, considerando o percurso acumulado desde o nível iniciante. A própria Cambridge ressalta que são referências, não uma previsão individual: intensidade, experiência anterior, idade e exposição ao idioma podem alterar bastante o tempo necessário. Saiba Mais sobre CEFR aqui

Portanto, aprender muito em três meses é impossível?

Não.

Dependendo do ponto de partida, intensidade e objetivo, alguém pode apresentar uma evolução extraordinária nesse período.

Mas existe uma diferença enorme entre:

“isso aconteceu comigo”

e

“meu método mostra como você pode fazer o mesmo”.

Na nossa leitura editorial, é absurdo transformar toda essa complexidade em uma linha narrativa na qual três meses de inglês parecem estar a poucos passos de Harvard e não é porque uma trajetória excepcional seja necessariamente falsa, mas porque exceção não deveria ser apresentada como expectativa sem contexto.

A promessa precisa sobreviver às perguntas

Existe ainda um princípio básico de proteção ao consumidor que vale lembrar.

O Código de Defesa do Consumidor determina que quem anuncia produtos ou serviços mantenha os dados fáticos, técnicos e científicos que sustentam a mensagem publicitária e proíbe publicidade enganosa, inclusive quando a omissão de informações é capaz de induzir o consumidor ao erro. Isso não significa que toda promessa ambiciosa seja automaticamente publicidade enganosa; significa que alegações comerciais precisam ser analisadas dentro do contexto em que são apresentadas.

É uma ótima regra também para quem está escolhendo uma mentoria para intercâmbio.

Não se impressione apenas com o resultado mostrado.

Pergunte pelo caminho.

“Mas agência ganha comissão”

Sim, muitas agências de intercâmbio trabalham comercialmente com instituições de ensino e podem ser remuneradas pelos parceiros pelas matrículas realizadas.

Isso precisa ser entendido dentro do modelo de negócio, mas receber comissão não torna automaticamente uma recomendação ruim, assim como cobrar diretamente do estudante por uma mentoria não torna automaticamente uma recomendação independente.

Agência, consultoria ou mentoria para intercâmbio?

Talvez nenhuma dessas palavras diga tanto quanto imaginamos.

Uma ótima mentoria pode ser exatamente o que determinado estudante precisa.

Uma agência de intercâmbio com boa consultoria pode resolver um processo acadêmico complexo. Além de assumir uma operação que o estudante simplesmente não quer administrar sozinho.

E há situações em que fazer tudo diretamente também é perfeitamente possível.

Na Beeducation Intercâmbio, não acreditamos que autonomia signifique fazer tudo sem ajuda. Autonomia também é saber quando você quer assumir uma tarefa e quando prefere contratar alguém para assumir parte dela.

O estudante não precisa escolher um lado dessa guerra inventada entre agência e mentoria e trocar a palavra consultoria por mentoria pode mudar bastante a embalagem. Não necessariamente muda o que está sendo vendido.

 

Saiba mais sobre a Beeducation

Temos orgulho de ser uma empresa liderada por mulheres. Somos viciadas em viajar, divertidas, muito profissionais e adoramos ajudar as pessoas a realizarem o sonho do intercâmbio. Venha para nosso site e saiba mais.

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